terça-feira, 5 de julho de 2011

Fazenda São Benedito-Entrevista Maria Soares de Brito

Quando pego a estrada me enredo em uma história de paixão pelo Brasil. Noroeste paulista rumo à Araçatuba e depois à Fazenda São Benedito.Vou tomando a forma do caminho deixando-me levar pelos olhos em planas e extensas paisagens .Interior do estado de São Paulo com seus verdes pastos, plantações , sítios repletos de beleza fresca.Desfruto som e imagem no clipe mutante do caminho.Na verdade não me interessa o destino,quero ir.Ir para o novo,para a imaginação.A paisagem é um papel que me envolve em sensações;uma alameda de buganvílias de beleza branca –espuma como nunca vi igual,quase cerejeiras tropicais floridas feito algodão doce pendente em cachos delicados.A manada de zebus brancos espalhados que vistos de longe parecem pedras que se movem.Horizonte esticado onde entram os sonhos.

Paradas por mais de uma dezena de pedágios numa viagem de pouco mais de 4 horas.Torres de fábricas espetadas no solo fértil.Lugares para pausa com café quente ,pão de queijo e todas as delícias dos doces do interior.Doces ternos,que carregam um sotaque arrastado de mulheres conversando a beira dos tachos com caldas fumegantes.

Passamos por cidades e cidadezinhas:Botucatu,Bauru,Penápolis,Mirandópolis,Lavínia,Valparaíso.Como é lindo meu estado de São Paulo.Praças e pracinhas,igrejas e igrejinhas.Bandeirinhas de festa junina,a promessa das quermesses animadas do interior.A música sertaneja,as violas e sanfonas.Essa alma brasileira passando por pontes e viadutos,a Melodia Sentimental de Villas-Lobos compõe o clipe que freqüenta minha cabeça neste instante.Cada cidade com a sua personalidade.De interior eu entendo ,embora no momento tenha preguiça de detalhar e prolongar a prosa.No interior ainda se pode deixar para depois porque se pensa que a vida não vai fugir e,com calma o certo é curtir a saúde da preguiça.

De um lado a plantação de cebolas,fartura de água,feixe de brotos verdes bem em pezinho. De outro o canavial fechado.Terra boa em tons do bordô ao rosa claro,areada,nascida para germinar sementes.É por esse caminho de chão que chegamos a fazenda São Benedito.

Maria prepara a mesa do lanche com as guloseimas que vão chegando,queijos e geléias artesanais.A sede é acolhedora,em tudo se percebe o bom gosto de Rosa Maria, dona da casa.Móveis antigos lustrados com capricho,aparadores de época,quadros belos ,estilo que traz a marca das românticas fazendas americanas com tecidos em madras e macias almofadas ,o oratório mineiro para o santo padroeiro.Simplicidade chique,Brasil sofisticado.Jardim bem cuidado dourado de outono,pomar,galinhas ciscando,cheiro de mato e o por do sol faiscando tons de vermelho,laranja ,amarelo ouro.O silêncio do fim de tarde roça pela pele.

Maria é prata da casa. A essência deste mundo rico onde carambolas são balagandãs,e pão com manteiga combina com café passado na hora em coador de pano.

Quero contar a história de Maria,convidá-la a falar sobre a sua vida enraizada no campo,sua lida de todo dia,as antigas fazendas de café .

Tem tempo.

A gostosura do comum, feijão com arroz branquinho bem temperado,a mandioca frita sequinha.O vinho é que decide o rumo da prosa.

A hora das fotos.

Farinha de mandioca, bacon, lingüiça e costelinha de porco.

Conversa na cozinha.


Maria Soares de Brito nasceu em Bento de Abreu uma cidadezinha “pequenininha demais” perto de Valparaíso ,noroeste paulista.Caçula de uma família de três filhos.

Seu pai era arrendatário de terras e quando os contratos terminavam a família deslocava-se para outros lugares. Com quatro anos lembra-se que moravam na Fazenda Santa Maria e vale a pena contar um pouco dessa história:- uma fazenda desbravada nos anos 20 por José Pires Castanho, corretor de café em Santos,SP que ali recebia em seu escritório de corretagem pessoas influentes no cenário cafeeiro paulista como Cunha Bueno e Lunardelli que trouxeram a notícia dessas terras de boa qualidade que contudo precisava ser desbravada. Pires Castanho aceitou a empreita comprando essas terras e plantando lá cerca de um milhão de pés de café. Um lugar inóspito, terra de índios, bem selvagem, curioso, tratando-se do estado de São Paulo. Havia apenas transporte ferroviário e com garantia de vida da companhia até 250 metros da linha; aquele que se aventurasse além dessa medida corria risco de vida pois os índios eram muito bravios. Muita peroba encontrada na região foi usada nas construções da cidade de Santos. A crise de 1929 quase torna inviável o trabalho desse pioneiro. Outras épocas se seguiram além do café, como a próspera fase da criação de gado, muitos premiados em todo o Brasil.

Hoje essa fazenda já não existe no tamanho original, pois todos sabem que filhos e netos vão adquirindo seus quinhões e a fazenda São Benedito é um desses quinhões que pertence a patroa de Maria, Dona Rosa Maria viúva de um desses herdeiros Cláudio Pires Castanho Doneux, um homem de visão que soube aproveitar a força desta terra quando moço plantando algodão numa de suas primeiras atividades antes de seguir para sua vocação como empreendedor e incorporador da construção civil na cidade de Santos nos anos de 1970 com mais de 30 edifícios de alto padrão lançados, a construção do Shopping Center e Hotel Parque Balneário e o condomínio de casas de luxo do Morro Santa Therezinha.

Maria cresceu e conheceu todas essas pessoas vendo e sentindo a força da tradição deste lugar que chegava a abrigar mais de 500 colonos, como verdadeiramente uma cidade com igreja, escola, mercado, etc. Pires Castanho não fazia por menos, tudo era sempre do melhor para todos, um homem como poucos muito honrado e admirado na época. A fazenda era uma cidade que se auto geria.

Estudou na escola da fazenda até o 4º ano primário no sistema de todas as séries juntas,uma fileira para cada série.

A lida da casa sede passava de mãe para filhas e foi assim que sua irmã Alda , sua mãe e ela serviram durante anos a esta família seguindo gerações,depois com Eduardo Pires Castanho filho de José e hoje com Dona Rosa Maria.

Com 20 anos Maria fez o curso Supletivo que na época se chamava Madureza. Com muito esforço formou-se em contabilidade na cidade de Mirandópolis perto da fazenda.

Ela se lembra emocionada dos colonos, do movimento intenso com trabalho para todos. Embarga a voz ao contar da crise de 1984 quando o número de empregados diminuiu ea desolação ocupou o lugar da alegria e da fartura.Permaneceu atendendo a s necessidades da família até o ano 2000 ora no escritório na sede da fazenda ora em São Paulo onde a família residia. Faz parte de uma época em que a lealdade e a dedicação eram valores reconhecidos e motivo de orgulho dos funcionários.

-Maria, como você sente a sua ligação com esta terra?

Nossa é tudo!Eu lido nela com prazer e gosto. Acordo pela manhã,abro a casa da sede,molho o jardim,faço a limpeza preparando tudo para quando os donos chegarem.Vasculho tetos e paredes,repasso os olhos por tudo,limpo todos os vidros que são muitos.Depois inseticido tudo.Quando eles vêem eu faço a arrumação,a comida e sirvo a mesa.Cuido para que tudo esteja sempre em ordem do jeito que Dona Rosa gosta.

-Uma virtude sua;

Eu nasci com paciência .É difícil a vida mas com paciência dá-se um jeito. (Enquanto conversamos chega o Ricardo com um cabrito dividido em quartos para colocar no freezer.Maria prepara tudo,oferece a faca de corte,acompanha o trabalho do moço.Fala firme e baixinho,prestativa,atenta a todos os detalhes.Sugere os cortes das peças,segura o pernil e num instante o cabrito vai pro freezer dobradinho)

-Qual é a graça da vida?

Dá uma risada gostosa e fala “Ai meu Deus”,tem que ter amor a tudo que se faz.Se não tiver amor minha filha a gente não acha graça em nada.

-Com seus 63 anos vividos nestas terras o que mudou?-o que era melhor antes e agora o que é bom?

Hoje eu vejo as coisas e valorizo.Antigamente a ingenuidade me deixava num mundo fechado e a parte.Hoje minha mente se abriu para o mundo.Antes era tudo muito lento,a gente fazia crochê embaixo da arvore depois do almoço na casa da minha tia.Nem sei como isso acabou.

Apesar dos perigos da vida moderna eu sei que viver é um risco e temos que enfrentar.Antigamente eram bailes e quermesses.Gostava das festas nas fazendas.Hoje o ruim é a falta de respeito,a ganância e a inveja.

As pessoas antes repartiam a fartura.

-E os sonhos?

Meu sonho era morar na cidade e até hoje Deus não me permitiu isso ainda.

-E o que te encanta na cidade?

Encontrar as pessoas ,ver as vitrines e o movimento.

Tenho uma casinha na cidade mas penso que aqui esta tão bom.Eu valorizo o sossego que tem aqui ,brigas me apavoram muito.

-Qual o segredo de viver bem?

Ai só Deus é que sabe,não sei nem como responder isso ,nem a palavra certa .Para ter tudo que quero nem que seja o mais simples tem que ter harmonia com o meu companheiro.

-Dinheiro traz felicidade?

Só para o sustento .Dinheiro demais só traz tristeza . A fé é que traz felicidade .A força do pensamento em Deus nos traz coisas boas.

Jogo Rápido

Saudade - dos meus pais e irmãos e do tempo de escola que eu adorava

Cachorros- é o melhor amigo mesmo

Tempo bom- outono .Quando aparece uma fumacinha branca no céu azul.

Brasil- é verde

Estrada- adoro.Olho de um lado e de outro e gosto.

Mensagem

“Procure amar e respeitar o próximo . Só assim teremos felicidade.”

sábado, 21 de agosto de 2010

Da série “reflexões sobre o destino político nacional”

Cristina Siqueira



De Tatuí ao Oiapoque e ao Chuí

Cristina Siqueira

Neste momento que antecede as eleições para presidente do Brasil, em que somos obrigados a ouvir promessas e mais promessas, vozes de candidatos e mais candidatos que, sem pedir licença, nos invadem no horário nobre de descanso com suas propagandas eleitorais gratuitas, penso que o correto seria dar espaço ao que o cidadão tem a dizer. Nem sei se tenho forças para me indignar com os fatos que nos subtraem a grandeza humana vistos diariamente nas notícias de TVs, nos jornais e revistas. Nem sei se já não me perdi na dimensão do valor da vida quando a ilusão entra em mim pelas telas abertas e me submete ao supérfluo, ao excessivo, ao artificial. Todos se curvam ao delírio consumista. Vivo nesta civilização de plástico, sem tempo para questionar, pensar, agir. Cansada do espetáculo da democracia agonizante. Cansada de ver bandidos, crianças sem instrução e um povo sem educação. Cansada de assistir ao delirante entusiasmo dos que pretendem o destino do poder às nossas custas. A democracia está enferma e temos o futuro de filhos, netos e próximas gerações a beber deste coquetel de injustiça social, deste erro de valores e amor ao poder.

Sou pelo poder do amor. Amo o Brasil por sua grandeza espiritual, pela generosidade natural com que fomos agraciados, seu povo que, apesar das intempéries, segue em frente. Escrevo como zeladora das consciências livres. Ao assumir uma postura reflexiva quanto aos rumos do país, pensemos com o sentido religioso de coletividade, de avançar com um novo e melhor paradigma evolutivo, pensemos em paz, em brasileiros melhor preparados, pensemos em soluções sustentáveis e nos milhões de brasileiros cujas opiniões contam tão pouco que praticamente não se dá por elas. E o pior, quando se manifestam não faltam meios de as silenciar, pagas em cestas disto e daquilo, subempregos, subcultura, sem o estímulo para a difícil e lenta conquista de ideais de justiça e liberdade, tolerância e solidariedade, trabalho e dignidade.

- O que sentimos nós brasileiros, o que de fato é preciso para acelerar o desenvolvimento do Brasil? - É hora de ouvir o povo brasileiro, é chegado o momento de nos expressar através do voto. É hora de prestar atenção e aprender mais sobre os mecanismos que trazem progresso ao país e melhoram a qualidade de vida. É chegado o momento de cobrar atitudes, de dizer não aos discursos vazios.

- Você está contente com os resultados dos programas de educação, saneamento básico, tributação de impostos, apoio e incentivo à cultura?

- Você se sente seguro em sua casa, nas ruas, nos bancos, nos shoppings, sítios, estradas?

- E a saúde, como vai? - Bem, obrigado. - E o que você faz quando precisa ser atendido com urgência e vê de perto, bem de pertinho, o descaso da saúde no Brasil?

Lendo e ouvindo opiniões de pessoas que pensam e passam pelas agruras da classe média (epa! – que classe média?)... a classe média que não tem tempo para nada mais a não ser trabalhar muito para educar os filhos, pagar os planos de saúde, pagar, pagar, pagar impostos e pedágios para viver sem tempo de usufruir das maravilhas do Brasil, porque é caro demais ser brasileiro. Coletei algumas opiniões para que possamos refletir sobre o assunto.

- Como é o seu Brasil, meu amigo eleitor?


Joe Brazuca

Maestro, compositor, poeta, escritor, em entrevista a Marcelo Novaes, diz o seguinte:

“Hoje em dia, interrompo qualquer esboço de colóquio, em se tratando de embustes políticos sobre as questões intermináveis da humanidade. Com o perdão do termo chulo que logo se aproxima: tal como ações políticas nefastas acabam em “pizzas”, principalmente em países deficitários, diálogos políticos costumam acabar em merda. Não tenho nem mais idade, nem mais intimidades para isso. E olha que me considero um “homo politicus”!


José Erasmo Peixoto

Cirurgião dentista, músico e estudante de história e sociologia.

“No meu ponto de vista, a política atual deixa muito a desejar. Todos nós sabemos dos problemas cotidianos pelo qual passamos (segurança, educação, saúde, etc.), mas não vou falar sobre isso, pois todos os dias os meios de comunicação exploram a fundo esses temas. No meu ponto de vista, necessitamos do fortalecimento das instituições, coisa que a classe política ignora por completo. Os políticos são passageiros, as instituições, quando fortalecidas pelo seu bom funcionamento e transparência, são eternas. No Brasil de hoje, o que mais necessitamos é de uma reforma política, com a adoção do voto distrital, fidelidade partidária, voto facultativo, fim da reeleição para cargos executivos e legislativos (tanto em nível federal, estadual e municipal). A alternância do poder é saudável. Basta ver que, no nosso parlamento, temos políticos que estão por mais de meio século no poder. É de grande importância a ficha do candidato que o eleitor vai escolher. Hoje, é só consultar alguns sites pela internet e você ficara sabendo do passado do candidato. Chega de ouvir a mesmo refrão: - Políticos, para mim, nada valem. São todos, com raras exceções, um bando de ladrões. Ou, a máxima: votei no fulano. Ele rouba, mas faz. Isso é um absurdo. Para não cometermos os mesmos erros que nos acompanham desde o advento da República aos dias atuais, onde a nau Brasil está abaixo da linha d’agua, e onde impera, na maioria das vezes, a mediocridade da classe política (quer um exemplo? assista o ‘CQC’, ‘Casseta e Planeta’, ‘Pânico’ e outros do gênero para perceber a hipocrisia e falsidade de ‘nossos representantes’, onde para eles o sinal cabal não é a função pela qual foram escolhidos, mas sim ‘legislar em causa própria’ - ou seja, no enriquecimento ilícito). É necessária a educação de base tanto nas escolas públicas como privadas, onde o jovem, desde cedo, possa aprender a usar a sua melhor arma: exercer a sua cidadania. Para finalizar, entendo que o respeito à supremacia da Constituição (infelizmente, ignorada pela maioria da população) é fator decisivo na preservação do regime democrático, na consolidação das liberdades públicas e na regência fiel dos negócios do Estado, cuja direção – para reputar-se legítima – há de se inspirar nos altos valores que informam e conformam a ética republicana.

O leitor sabe o significado da palavra oximoro? Pois bem, oximoro são duas palavras de sentido oposto que reforçam uma expressão. Como exemplo: silêncio ensurdecedor, pequeno grande homem. Hoje, em minha opinião, o melhor exemplo de oximoro é: ‘Conselho de Ética do Congresso Nacional’. A que ponto chegamos!!!!!!”


Concluo esta página convidando-o a participar com suas reflexões sobre o destino do país, afinal somos um povo, falamos a mesma língua, aqui criamos raízes e, nesta página, podemos nos expressar.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Cerejeiras em flor-Hanami



A sessão de cinema teve início ás 20 horas.Convidada de Luís Duarte para assistir Cerejeira em Flor-Hanami,filme alemão dramático e comovente da diretora Dóris Dörrie,produtora Olga Film.
A regalia de ser paparicada pela gentileza do amigo que serviu chá de pessego com bolo e colocou em meus pés a manta de lã.Toco neste instante sem pressa à memória com sua capacidade de me fazer viajar na significãncia das sutilezas de anos mais antigos quando a minha casa simples e acolhedora abrigava a boemia dos loucos de vontade de viver,inquietos no silêncio das noites longas desta Tatuí, interior.
Casa caiada de branco,portas e janelas pintadas em tinta à óleo azul colonial,cozinha de cerâmica vermelha,corredor de ladrilho hidráulico,trancas e tramelas,assoalho de tábuas largas,a parede da sala descascada fazendo ver os tijolos grandes apoiando objetos e telas de arte.
Nesta casa tive o privilégio de ser iniciada no Butô por Rivaldo Nogueira,meu mestre que me conduzia a uma leitura de gestos e expressões desta dança japonesa tema do filme Hanami.
Puxávamos versos,bebíamos vinho,ouvia histórias de Kazuo Ohno,mestre do Butô falecido há três semanas.Abria a janela da alma e via através do corpo a assinatura de Deus na sua obra maior,como fui feita com carinho à sua imagem e semelhança.A dança a me mostrar que há algo mais a se fazer com o corpo,com os olhos,com o gesto.
À mesa o vinho tinto,o aroma das alcachofras à moda siciliana receita de minha avó,as mãos despidas das luvas de lã,o vestido medieval com ilhoses apoiando o recorte do decote,o crucifixo de marcassita portuguesa.A eloquência criativa,a inconformidade com a vida banal,éramos loucos...loucos de paixão pela aventura,loucos por transcender o óbvio,firmando-nos como uma expressão de arte.Éramos nós,ninguéns,chegando de lugar algum.Movimento "underground",mágico na dimensão que brincávamos de alegria ,
Nada resta a não ser o flashe da memória que espocou sentidos adormecidos no despertar das cerejeiras em flor,no telefone rosa daquela dançarina de Butô,na performance de Tadashi Endo.
A poesia foi arquivada,a casa demolida e em seu lugar foi construído um estacionamento.
Nada de concreto existe mais.
Além daquelas noites estava o mundo,o sonho,a paixão ,a espera.
Nós nos dispersamos para poder ganhar a vida.E hoje eis-me aqui deslizando na noite em sépia pelos improvisos que nos dignificavam em sentido.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Tendências -2010





O movimento acelerado do mundo, a mudança óbvia de paradigma que desestabiliza todo um padrão de valores apresenta novos indicadores de comportamento.

* Os consumidores se tornam mais exigentes. Profissionalismo será um diferencial nas empresas e no comércio. Investimento no ser humano mais consciente e qualificado.

* Espera-se civilização, boa educação, palavras amáveis, cortesia, bom atendimento, honestidade.

* Surge a nova profissão de curadores em estilo, gosto e erudição. Alguém tem que dizer o que é bom, bonito e justo, utilizando-se de cultura e conhecimento. Aquele que sabe assina para as massas se orientarem. Especialistas serão consultados e respeitados por suas experiências e opiniões. Menos amadorismo e achismo. Curador é aquele que separa o joio do trigo.

* O mundo überconectado se expande além das fronteiras do “mundinho” particular de cada um. Muitos se orientam por blogs, sites e se comunicam em rede. O que é ótimo e o que é ruim se espalha em segundos.

* Transparência total. Tudo será analisado, criticado, dados serão comparados e a escolha virá após uma triagem em preço, qualidade, e investimento social e ecológico das empresas. Tudo que estiver camuflado, com propaganda enganosa, ficará de lado. Credibilidade é uma conquista que será valorizada.

* O direito do consumidor será levado a sério, nesta era online uma postagem negativa em relação a uma empresa gera danos irreversíveis. Cartas aos jornais e revistas serão apoio para justas reivindicações. Jornais, revistas, rádio, TVs são fortes formadores de opinião, mas haverá também maior interesse pela leitura.

* É a vez dos pequenos grupos, reuniões em casa, chic é reunir pessoas que compartilham do mesmo interesse. Ler, conversar, viajar, teatro, cinema e não fazer nada, nadinha, são boas opções. Comprar demais é feio. Ser consumista feroz é horroroso! Desperdício está por fora completamente.

* Luxo é saber o que quer e ir atrás. Decidir o que tem mais valor. Luxo é se entender como um ser único, ter tempo para fazer o que gosta. Ter prazer nas coisas que faz. Tempo é luxo! Energia é luxo! Personalidade é luxo!

* Caridade, amor ao próximo, cuidados com a tribo de amigos, família, apoio àqueles que querem estudar, pesquisar, realizar um projeto cultural, um projeto ambiental, um projeto social. Bons olhos para as crianças e os idosos. Projetos de inclusão real para deficientes.

Pós-Cop-15

- Esperar o que após o fiasco de Copenhagen? Forçados pela natureza, depende em muito de agirmos em favor de posturas ecologicamente corretas. Rever todos os nossos posicionamentos, exigir dos governantes atitudes urgentes e responsáveis. Alguns exemplos a serem seguidos:

No México, a onda é andar de bike. Além de desafogar o tráfego, não polui e é seguro. Ciclovias por toda a cidade, como na vizinha Sorocaba. Árvores em praças, quintais, jardins. Árvores frutíferas em estradas, parques, praças, avenidas. Jardins verticais em prédios, casas. Em LA, o governo está trocando por “leds” todas as 140 mil luzes de rua. Prefeituras estão financiando projetos ligados ao verde. Prefeituras deveriam distribuir embalagens próprias para reciclagem e posicionar kits de reciclagem pela cidade. Uma ótima medida seria os supermercados oferecerem caixas de papelão e sacolas de pano para embalar as compras, deveria ser lei. Na Austrália, os cidadãos, junto ao governo, proibiram a venda de água em garrafa. O detalhe é que água potabilíssima sai das torneiras.

Vale tudo que for ao ar livre.

Identidade cultural

A importância de se preservar a nossa cultura, o que foi e é feito na terra. Raízes, memória, herança são valores que imprimem a nossa personalidade. Sensibilizar estudantes, cidadãos para a alma de nossa gente, consciência de nossa trajetória humana.

Orgulho de nossas tradições.

* É a hora e vez das gordinhas sexys, a diva é a cantora inglesa Beth Dito, da banda The Gossip. Aceitar o corpo como ele é, aceitar a idade, enfim, aceitar-se é forte. Ter personalidade, não se deixar levar pelo modismo. Quem é transparente, educado, consciente, informado, está com tudo! O correto, que mantém a palavra e assume seus compromissos, será bem-vindo. Louvável as pessoas do bem.

* Marketing honesto, aberto, cuidadoso. Os discursos vazios e as falas demagógicas dos políticos serão execrados. Tudo o que polui, invade a privacidade e exagera não será bem visto.

* Vale tudo que trouxer benefício à saúde. Produtos frescos, orgânicos. Consumidores conscientes é que irão aos supermercados. Estilo de vida pró-ativo. Comidas caseiras, vegetais, frutas, líquidos. Médicos amigos. Gerontólogos, personal espiritual, gestores, curadores do saber e da beleza, escritores, cuidadores de idosos, professores, psicólogos, terapeutas, enfim, todos os profissionais que cuidam do ser humano terão relevo.

* Nas artes plásticas e literatura, a chamada é sensorial. Aguçar os sentidos. Ir além das coisas, transcender...

Neste apanhado geral, fruto de leituras e observação do momento, espero estar contribuindo para um mundo melhor.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Empório do Café Literário-Mural do Autor-Cristina Siqueira



Cristina Siqueira



“Cristina Siqueira é escritora, poetisa, jornalista,decoradora.É autora do Projeto Livro de Rua que transforma vias públicas em vias de leitura. Promove oficinas de literatura.

.Obras editadas: –Papel a carne da noz- Por trás dos muros,Livro Prisma e um CD: Se houvesse amor a vida seria carícia.

.Colabora com artigos para jornais e revistas no Brasil e exterior.Em decoração de ambientes utiliza técnicas de Feng Shui-

Terapeuta Holistica atua como facilitadora de auto conhecimento.Consultorias: Feng Shui,Taro Mitológico Grego,Terapia floral de Bach- Cursos e estudo-na Europa, Estados Unidos e Brasil.”


Em gentileza ao Empório, Cristina nos enviou uma crônica que escreveu em Lisboa ,na casa de Fernando Pessoa.

“Escrevi na casa de Fernando Pessoa,lugar que frequentei para sentir o espírito
do grande poeta e entender a sua obra”
.(palavras de Cristina Siqueira)


Lisboa

Casa Fernando Pessoa
Rua Coelho da Rocha 16_18


Hoje estando aqui pela segunda vez observo o contraste da claridade da casa,seu branco neve e a solenidade em negro deste poeta magnífico e misteriosíssimo Fernando Pessoa. Na recepção prepara-se uma exposição em esculturas de papier maché modelando o poeta nas mais diferentes cenas,compondo inusitados movimentos.Algo lúdico...a brincadeira Pessoa.Humor,quase um circo de papel.Algumas sugerem detalhes do cotidiano da vida portuguesa, em uma delas o artista compôs o poeta escrevendo em um caderno de reclamação.Este caderno existe nas casas de comércio
portuguesas para o consumidor colocar as suas queixas.
Ao lado a biblioteca em seu silêncio santo.
Lugar de espera sagrada,contemplação do universo Pessoano em miríades estelares ,organismo vibrante,a obra disposta pelas prateleiras.Os livros organizados.
Sou tocada pelo lugar.
Parece-me que se pousar aqui e estiver calma poderei passar como que por encanto pelas influências que me trazem arrepios.Toquei a cômoda que servia à Fernando.A intimidade com a madeira encerada,os olhos fechados,a vibração me toma num redemoinho de cheiros e texturas,algo que pressinto cobiça o meu peito,meu cofre escuro por onde transito à superfície .Deve haver mais nesta caixa febril de contorno macio e arredondado,deve haver um botão,uma nascente,uma artéria e seus afluentes,algo que tocado se transforme em gente .
Não fosse o medo que me gela o estômago mesmo sendo clara a tarde,me entregaria a este idílio temeroso de amar a um poeta além da carne.Mas é tão viva a sua presença aqui que o sinto passar rente ao meu lado.São passadas enérgicas e resolutas,transitando fluídos pela casa
A passar de leve um certo ar a me tanger as costas,um alívio contente de carinho e escuto um: _Seja benvinda querida brasileira ,sou todo seu,navegante dos tecidos que se tramam além do ser, além do pressentido.
Vens de tão longe querida forasteira.Com bagagens tupis e selos de países nas mensagens de algibeira .
Tu não sabes que és minha personagem e hei de te influir a vida inteira.
E penso que se derrame inspirações sobre os poetas que não os confundam,nem os tornem loucos e sim que os esclareçam e os libertem em vias abertas em seus ouvidos moucos.
És peregrina,pagã,erigida antes dos deuses se tornarem império.
És ambigua,perplexa se torna
espocando flashes de mil mulheres
em potes de mel como dissertastes em versos
És safa no sentido sagrado da palavra
e habitastes na Ilha do Paraíso incalculável
Buscas a filosofia
quando na verdade
ela é que tendes a ti
Refém do que não supões
que haja em teu íntimo
em teu imo
além de tudo que entendes de psicologismo
Não se incomode mais com as pratas
mesmo sendo mulher e ambiciosa
que nada lhe será impossível
nesta versão abandonada da vida
Entrega-te como amante
no quarto de penumbra
e verás tudo tão claro
que se cansará de ver
E tudo passará
pelos teus olhos mansos
e bastará
será a mais do que desejas agora
Haverá o momento em que
o que olhas te embebedará
a alma
todo o seu refúgio sensível
e não será mais tu
o que entendes que era
e não existirás
até que se formem
novos personagens em seu ôco imo
Nascerás assim mais vezes
em corpos máscaras
que ao crescer se auto inventam
como os poetas inventam personagens
Com direito a tudo
que os justifiquem ao mundo
Até que um dia
o sopro afinal, o último
lhes carregue a entoar
no espaço uma nova sinfonia
onde se pensava
que nada houvesse
ou o gelo e um retalhar de culpas

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ser. Sobreviver em Ruptura-Carmen Ezequiel






Carmen Ezequiel,escritora portuguesa estreando com o Livro Ser. Sobreviver em Ruptura

“Por vezes, as palavras representam um modo muito mais acertado de se calar do que o silêncio.”

Simone de Beauvoir

SER – Sobreviver Em Ruptura é uma compilação de textos de um tempo passado; da voz de uma adolescente, bloqueada pelas constantes alterações emocionais e físicas, próprias da idade e de um ser em construção; mas que permanecem continuamente em mim.De um manifesto e constante silêncio contradizem-se palavras gritantes.As explosões de sentimentos, acumulados, sombrios, difusos e turbulentos, escondidos numa consciência perdida e fã de uma tristeza abismal.

Carmen Ezequiel


Quanto à aquisição, qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode fazê-lo através do site da editora:

http://www.corposeditora.com/site/mostra_obra.asp?idcoleccao=29&idobra=503

que a mesma envia directamente. Há a possibilidade de também adquirir a obra em formato digital.



segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Pamela Woods Webster


Tom e Pamela,

A paixão e a dedicação com que vocês se envolvem com a natureza para observar pássaros.

Para nós, brasileiros, é uma vivência ainda não assimilada. Uma novidade a ser importada e aprendida, um hobby que vale ser apresentado às nossas crianças.

Em alguns lugares do Brasil - e não são poucos -, a prática do estilingue para matar passarinhos é corriqueira, vista como uma brincadeira de criança, pura diversão.

Levá-los a observar de perto os passarinhos e catalogá-los, com certeza, os despertará para que amem e respeitem estas pequenas vidas.

Foi um prazer estar com vocês aqui em casa.

Com carinho,

Cristina Siqueira

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Pamela Woods Webster morou em Tatuí entre 1971 e 1972. Hóspede das famílias Holtz e Bertin, veio como estudante participando do programa de intercâmbio cultural “American Field Service”. Nasceu em Nebraska (Estados Unidos), cresceu na Califórnia e, entre idas e voltas, há 27 anos reside no Alasca. É psicoterapeuta, prestando aconselhamento individual ou familiar.

Em 1981, casou-se com o doutor Tom Webster. Tom tem doutorado em inglês pela Universidade de Berkeley e exerce o cargo de ombudsman no Alasca, cargo ligado ao Poder Legislativo. Apenas cinco Estados americanos oferecem este serviço. A função do ombudsman é aconselhar o cidadão a lidar com o Estado. Presta um serviço de auditor, uma ponte entre a sociedade civil e o Estado. É colecionador de livros e um grande apreciador de música. Em um trabalho de pesquisa, Tom garimpa músicas até a década de 70. Aprecia os clássicos, country, bluegrass, e gosta do trabalho musical da banda Grateful Dead, cujo líder era Jerry Garcia.

Tom e Pamela são pais de Laura. Quando Laura tinha 11 anos, ela escreveu, ilustrou, editou e publicou um livro que narrava sua aventura do Alasca ao Brasil. Atualmente, finaliza seu bacharelado em publicidade.

O casal chegou em casa trazido por Regina Holtz, num clima de muita alegria, na tarde de inverno-verão. Com a agenda apertada, pois ainda iriam visitar dona Ruth Rocha Leite e as amigas Beth e Mercês.

De entrada, perguntei a Pamela: e o Brasil?

Em fluente português, ela respondeu: “Adoro o Brasil”, é a sexta viagem que faço.

Como está sendo esta viagem ao Brasil e este reencontro com pessoa queridas em Tatuí?

Fomos muito festejados. Esta sendo superdivertido. É a primeira vez que eu chego aqui desde o falecimento de dona Therezinha, que era minha mãe extra. Estou sendo mimada por todos.

Na última vez que estive aqui, fiquei com a turminha do meu coração: dona Therezinha, dona Totinha, dona Ritinha e o Zé Carlos. Aquela rua com aquelas quatro casas holtzianas uma ao lado da outra.

Antes de aqui chegar, visitamos o Pantanal. Depois, fomos a São Paulo e visitamos o Zoológico, a Pinacoteca do Estado, o Museu da Língua Portuguesa, e depois almoçamos no Masp. Aproveitamos muito em São Paulo.

Tatuí antiga e a Tatuí de hoje?

Vejo mais globalização. A presença do idioma inglês incorporado à cultura brasileira. Antigamente, as pessoas se sentiam inibidas em conversar em outro idioma. Hoje, todos se aproximam, querem conversar com a gente. Existe mais consciência da vida internacional.

Quando eu estive aqui pela primeira vez, a atmosfera da cidade era de um lugar isolado, pequeno. Eu me lembro da festa de Corpus Christ, das latas com pó de café que eram guardadas depois do uso para enfeitar as ruas em composição com pó de serra e outros materiais. A cidade era uma pequena aldeia com 27 mil habitantes.

A cidade era muito mais silenciosa, sem estes barulhos estridentes. Era possível ouvir o barulho das carroças. Os vendedores batiam palmas e iam de porta em porta. Era difícil fazer uma chamada internacional. As voltas no jardim, o footing onde aconteciam as paqueras, as serenatas. Como Zé Carlos falava, “era aquela vidinha”. E dizia mais: para não entrar em carro com um homem sozinho; em grupo, podia. Lembro-me das paradas, dos desfiles cívicos como temos nos Estados Unidos.

Durante um ano morei em Tatuí, fiz o clássico e me formei aqui no Instituto de Educação “Barão de Suruí”.

O que mais os interessa no Brasil?

Nós somos birdwatching, observadores de pássaros. Pudemos ver mais de 200 tipos diferentes de pássaros no Pantanal. Fomos acompanhados por um guia muito bom, de nome Paulo Boute, agrônomo especialista em pássaros. Nestas excursões, utilizamos binóculos e telescópio. Um pássaro paradinho é de um jeito, e quando abre as asas é de outro. Na seqüência, é feita a catalogação dos pássaros reconhecidos na natureza se pautando por guias muito bem elaborados (da mochila, Pamela tira dois livros, um de aquarelas e outro de fotos com aves do Brasil).

Catalogados no Brasil, existem 1.830 espécies de pássaros, o que representa dois terços das espécies de pássaros do mundo. Os pássaros são um tesouro natural do país. Nos Estados Unidos, existem 80 milhões de pessoas que se dedicam à observação de pássaros de maneira casual ou sistemática. É um hobby caro, que exige tempo, livros e aparatos como binóculo e telescópio.

Aqui em Tatuí, estivemos observando os pássaros no sítio Maria Tuca, na Floresta Nacional de Ipanema e no Cemitério Municipal. Em uma hora, vimos, entre outras espécies, um gibão de couro (Pamela ilustra a conversa com a foto do gibão no livro). Em Sorocaba, existe um estudioso, o doutor Luciano Bonati, regalado, que publicou um livro sobre as aves de Sorocaba e região.

A questão ambiental se favoreceria muito se as crianças se interessassem em observar os pássaros intimamente. A beleza dos pássaros os irão seduzir e suas atitudes, com certeza, se tornarão de preservadores e não de predadores da natureza.

É um hobby que pode ser praticado em grupos ou não. Como é preciso se concentrar, focar e ouvir, é interessante organizar grupos bem pequenos. A atitude silenciosa é fundamental. Estudamos os pássaros em seu comportamento e ouvindo seus cantos.

Os passarinheiros são pessoas saudáveis, pois têm que acordar bem cedinho, respeitam a natureza. As observações acontecem de manhã bem cedinho e ao anoitecer.

Finalizando, eles parabenizam o trabalho de Décio Soares e seu grupo, que estão desenvolvendo e trazendo para Tatuí este hobby. E deixam como informação aos interessados que todo suporte a estas atividades relacionadas à observação das aves pode ser fornecida pela Sociedade Nacional Audubon.

John James Audubon (26 de Abril 1785 – 27 de Janeiro 1851) foi um naturalista norte-americano de origem francesa, especializado na ilustração científica de aves. O seu trabalho mais conhecido, “The Birds of America” (“As Aves da América”), alcançou sucesso comercial e prestígio científico.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cristina Siqueira entrevista Célio Turino


Oi, Célio,

Seu trabalho amplia as possibilidades de avanço da cultura. Apoia e dá sustentação a um novo e viável modelo de concretizar projetos culturais e civilização neste nosso país. Suas respostas trazem o vigor de suas convicções idealistas e combativas e destacam um futuro mais humanista para o Brasil.

Motivada pelo seu discurso, passei o fim-de-semana planejando a ONG “Escola de Vida”, um projeto já existente, mas engavetado pelas urgências do dia-a-dia e que pretendo viabilizar em um Ponto de Cultura em Tatuí .

Tatuí, a minha cidade ternura, onde atuo na área cultural, sendo já há muitas décadas eu mesma uma fundação sem fins lucrativos, merece o empenho e o apoio das forças vivas que dinamizam a cidade. Para este projeto se desenvolver, penso em conquistar apoio de nosso prefeito Luiz Gonzaga Vieira de Camargo, entusiasta das causas culturais, antenado ao nosso patrimônio subjetivo. Conto com a sustentação financeira e efetivo patrocínio de nossos empresários, que sempre apostaram comigo em todos os projetos realizados na e pela cidade.

Quero retomar o projeto Livro de Rua em Tatuí, transformando nossas vias públicas em vias de leitura.

Com admiração.

Cristina Siqueira



Célio Turino

Célio Turino, historiador, escritor e gestor cultural, nasceu em Indaiatuba e foi criado em Campinas. Foi lá que estudou e desenvolveu toda a sua carreira profissional (trabalhou em museus, foi secretário de cultura em Campinas – 1990/92 - e produtor cultural), até ser convidado para trabalhar como diretor de promoções esportivas e lazer, na prefeitura de São Paulo (2001/04). Em 2004, foi convidado pelo ministro Gilberto Gil para exercer o cargo de secretário de programas e projetos (atual Secretaria da Cidadania Cultural), e está no ministério até hoje. Nele, desenvolveu o conceito e teoria dos Pontos de Cultura, sendo o responsável pela implantação do programa Cultura Viva.

Escreveu e organizou alguns livros e ensaios, entre eles, “Na Trilha de Macunaíma - Ócio e Trabalho na Cidade”, pela editora Senac. Tem 48 anos - pai de duas filhas e avô de uma menina linda, Beatriz, e Pedro, um meninão. Atualmente, vive pelo Brasil, de ponto a ponto.

Como surgiu o Cultura Viva?

Inicialmente, a intenção do presidente Lula era a construção de centros culturais nas periferias e pequenos municípios do Brasil. Ocorre que esta ideia não deu muito certo, pois estava muito focada na estrutura, uma construção metálica pré-moldada, tudo muito igual para um Brasil tão diverso. Gastou-se muito tempo pensando em prédio e terreno e pouco no fluxo cultural. Foi quando houve uma mudança de secretário e eu fui convidado para reformular o programa (junho de 2004).

Propuz que o foco fosse invertido, mais olhar para as pessoas e menos para prédios e edificações. Há tanta gente fazendo cultura pelo Brasil afora. Fazem isso por pura doação e compromisso com seu povo. Pensei que seria muito melhor apoiar essa gente que construir prédios, potencializar o que já é feito com muito sacrifício e dar condições para que esses grupos e pessoas possam se desenvolver com autonomia . Foi assim que nasceu o programa Cultura Viva.

Como surgiu a ideia do Ponto de Cultura?

O termo Ponto de Cultura foi empregado pela primeira vez em Campinas, em 1987. Era um casarão municipal que foi restaurado e que teria seu espaço compartilhado entre posto de correio, prefeitura e espaço cultural, tudo muito simples, mas de caráter comunitário e funcional, um espaço de recepção e irradiação de cultura. Foi em Joaquim Egídio, um distrito rural, e o projeto arquitetônico foi de Ana Vilanueva, uma ótima arquiteta, à época recém-formada; ela é de Tatuí. O secretário era Augusto Arantes e eu trabalhei com ele, como chefe da divisão de museus. Era bastante jovem e aprendi muito.

Anos depois fui nomeado secretário de cultura em Campinas e pude ampliar a rede. Chegamos a 13 pontos na cidade. Foi nessa época que a experiência ganhou corpo e se desenvolveu. A ideia era muito simples: gestão compartilhada com a comunidade, articulação em rede, e o governo oferecia uma biblioteca comunitária, cursos, oficinas e pagava o salário de um agente comunitário de cultura (antes de existir a ideia do agente comunitário de saúde). Com a mudança de governo, este trabalho se esvaiu. Quis o destino que eu retomasse essa ideia 15 anos depois, em escala nacional. Daí nasceram os Pontos de Cultura. Já são mais de 1.500 em todo o Brasil.

O que é um Ponto de Cultura?

Ponto de Cultura é uma ação já desenvolvida por uma comunidade, pode ser um grupo de teatro amador, uma associação de artistas, uma ONG. Tudo cabe, desde que tenha a cultura como foco, e uma cultura pensada de maneira ampla, entendida como arte e expressão simbólica, mas também enquanto cidadania e economia. Os pontos podem estar em pequenas casas, salas ou grandes equipamentos culturais, até - por que não? - à sombra de uma árvore ou coreto. O importante é que tenha vida. Tenho visto vários pontos que começaram na casa de alguém, gente generosa que abriu seu espaço para compartilhá-lo com crianças, jovens e idosos.

Como funciona um Ponto de Cultura?

Cada Ponto de Cultura recebe R$ 60 mil por ano, em um contrato de três anos, o que dá R$ 180 mil no total. Com esse recurso, a entidade pode desenvolver seu trabalho, contratar professores e oficineiros, comprar equipamentos, fazer uma reforma no espaço. Tudo muito simples, mas que envolve muita vontade e criatividade, por isso dá certo. Há muita gente boa espalhada por esse país. Por que não apoiá-los? Essa é a ideia.

Ponto de Cultura em si é um ato de cidadania de importância política impressionante. Qual é a meta que o governo pretende alcançar?

Concordo plenamente com você. Este é o grande sentido do programa: fomentar a capacidade transformadora de nosso povo. Eu diria que, por baixo de instituições políticas tão apodrecidas e distanciadas da realidade, brota um novo país, solidário, participativo e justo. Em minhas andanças pelo Brasil - e tenho viajado muito nestes cinco anos -, percebo que é daí que vai nascer uma nova democracia no Brasil. Por enquanto, nossa capacidade é para alcançarmos 2.500 Pontos de Cultura até 2010, em um investimento total de R$ 120 milhões/ano

Ponto de Cultura possibilita intercâmbio artístico cultural?

Um Ponto de Cultura só se desenvolve plenamente quando se articula em rede, por isso o intercâmbio é fundamental. No momento, estamos com um edital aberto para interações estéticas entre artistas e Pontos de Cultura. São prêmios que vão de R$ 15 mil a R$ 90 mil, para 70 selecionados. Quem quiser participar pode procurar no site do ministério ou da Funarte, nossa parceira.

A SCC, através dos Pontos de Cultura, favorece os pequenos eventos culturais que acontecem nas cidades?

Sim. Realizamos recentemente um edital para pequenos eventos e Pontos de Cultura. Foram mais de 500 inscritos, e selecionamos 170, com prêmios entre R$ 10 mil e R$ 50 mil. A ideia é incluir e chegar a lugares aonde normalmente os governos não chegam.

Como tem sido o resultado dos Pontos de Cultura espalhados pelo Brasil? Quantos existem hoje e qual a perspectiva de ampliação?

Hoje, Ponto de Cultura é uma política pública de referencia para diversos governos, inclusive do exterior, uma ideia simples que se espalha em comunhão com o povo. O resultado tem sido realmente muito bom. Em São Paulo, lançamos recentemente um edital para mais 300 Pontos de Cultura, em parceria com o governo do Estado (o governo federal dá R$ 36 milhões e o Estado, R$ 18 milhões). Note, antes do Ponto de Cultura não havia políticas culturais que chegassem diretamente nas comunidades, que fortalecessem diretamente quem faz cultura, essa é a diferença. E os Pontos de Cultura estão fazendo a diferença.

A arte sem incentivo morre. O que o Estado fornece para viabilizar um Ponto de Cultura?

Concordo totalmente com você. Além do recurso anual de R$ 60 mil, o Ponto entra na rede cultura viva e participa de diversas outras redes, ações e intercâmbios, como Escola Viva (mais 15 mil), Griô (uma bolsa para mestres da cultura popular), Pontinho (cultura infantil, brinquedotecas), Ponto de Leitura, etc... É tudo muito dinâmico, vivo e com muita participação. A soma de tudo faz uma diferença e tanto.

Tenho ouvido comentários extremamente positivos sobre as realizações dos Pontos de Cultura, principalmente no Nordeste. Como você se sente sendo o “pai” dessa ideia que está dando muito certo?

Abençoado. Todos os dias agradeço por essa oportunidade de servir ao meu país de uma forma diferente. E lembro sempre do que meu avô dizia: “Servidor público ‘serve’ e não se serve do público”. Tento honrar este ensinamento e torço para, quem sabe um dia, todo serviço público no Brasil se guie por este princípio. Quanto aos Pontos, sugiro que no futuro você os entreviste diretamente. De fato, percebo que eles fazem a diferença.

E os próximos projetos?

Estou terminando um livro, “Ponto de Cultura - o Brasil de Baixo para Cima”. Espero lançá-lo até o final do ano.

Qual a sua maneira de encarar a vida?

A vida tem que ser boa para todo mundo. Sou um comunista por princípio de vida.

Você se sente realizado com as perspectivas desse trabalho?

Hoje sou um cidadão do Brasil, nem tenho mais sotaque, se bem que, às vezes, carrego no “r” (risos). Gosto de ser assim, brasileiro.

Jogo rápido

Livros que fizeram sua cabeça - São tantos, mas aqui vão quatro: ‘Os Miseráveis”, de Vitor Hugo, “Macunaíma”, de Mário de Andrade, “Manifesto Comunista”, de Karl Marx e Engels, e “Por uma Outra Globalização”, de Milton Santos. Também gosto muito dos escritos de José Bonifácio de Andrada, nosso patriarca da Independência, muito lúcido. Deveríamos lê-lo mais.

Uma lembrança - As caminhadas com meu avô, quando eu vendia empadas na rua, junto com ele. Tinha 11 anos.

Se você não estivesse ligado à política, o que gostaria de fazer? - Eu não me entendo ligado à política neste sentido que conhecemos. Faço política porque ela é uma característica de todos os seres humanos, e a faço sempre em uma perspectiva pública. Gosto de desenvolver projetos em escala, que atendam muita gente, isso só a política pública permite (se bem que é tão difícil).

Se não fizesse isso, me dedicaria a estudar a escrita dos incas. Dizem que nas Américas não havia escrita. Não é verdade. O problema é que ninguém conseguiu traduzir o que está escrito, faltou uma “pedra de roseta” e um arqueólogo como Champoleon (que acompanhou Napoleão Bonaparte quando este invadiu o Egito), que traduzisse os hieróglifos egípcios (na pedra de roseta, havia textos em grego, aramaico e hierógrifos, todos dizendo a mesma coisa. Com isso, deu para fazer a tradução e entender a escrita egípcia). A escrita dos incas é sofisticadíssima, toda em linguagem matemática, são barbantes coloridos com nós. Com essa escrita, eles controlavam todo o seu império, faziam contabilidade, mandavam mensagens. É estudo para muito tempo e para muita gente. Acho que vou ficar na vontade.

A maior descoberta da sua vida? - Ainda não descobri (risos).

O que te surpreende no povo brasileiro? - Não diria surpreender, mas admiração. Adoro o Brasil, adoro nosso povo. O que mais admiro é a ginga, a criatividade e a generosidade. O que tento entender é porque uma terra e uma gente tão dadivosa se maltrata tanto.

Gostaria que você me dissesse a sua frase, uma mensagem - Juntos faremos deste lugar um bom país.